Broinhas de milho (fubá)

Quando o meu pai ia viajar, os jantares lá de casa costumavam ser lanches mais reforçados, o que eu adorava. Tirando uma fase de quase total repulsa por comida que, dizem, durou até os meus 2, 3 anos, eu sempre me vi como “bom garfo”, mas gostava às vezes de jantares mais leves – era mais divertido, e um pouco subversivo, sair do dogma brasileiro do arroz-feijão-mistura. Os fins de semana eram mais flexíveis, mas se meu pai estava fora, o cardápio noturno era menos “rígido” também nos outros dias. Não que ele exigisse isso ou aquilo, mas minha mãe sentia a responsabilidade de colocar três refeições completas na mesa durante a semana – que trabalho isto deveria dar!

Uma das coisas que a minha mãe preparava para esses lanches noturnos eram as broinhas de fubá, uma receita que, infelizmente, não encontrei nos cadernos dela. Poucas coisas na vida são tão boas como pães, pãezinhos e bolinhos recém-saídos do forno, e elas não eram exceção.

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Usei esta receita, mas com algumas modificações. Na primeira vez que a preparei, achei adocicada demais e com um travo a fermento acentuado. Eu não gosto de broa muito doce, motivo que me fez desistir de comprá-las fora, acho que o sabor fica “agressivo”. Não é frescura, é que me acostumei mesmo a um sabor mais suave e acho que não precisamos exagerar no açúcar em pães e bolos de milho/fubá. Sei que o açúcar ajuda a trazer um pouco de umidade a essa farinha de natureza mais seca, mas é só tomar cuidado com o tempo de forno (e mesmo as mais doces costumam ser muito secas, estas ficaram perfeitas).

As minhas mudanças:

2 1/2 cs de açúcar em vez de 4;

1 colher de sobremesa de fermento em vez de uma de sopa (a colher de sobremesa a que me refiro é aquela menor que a de sopa e maior que a de chá, a de comer sobremesas, uma medida pouco usada hoje em dia);

e nada de queijo ralado, em vez disto, usei raspas de um limão siciliano (e também as sementes de funcho, pois adoro).

Ficaram bem melhores que as da primeira vez, quase lembraram as da minha mãe. Difícil é parar de comer.

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A senhora das especiarias

Li este livro há muito, muito tempo (ganhei de aniversário da esquipe de redação da revista onde trabalhava), numa época em que me interessava por alquimias gastronômicas (e agora voltei a me interessar). Não é um livro sobre comida, porém, mas sim uma narrativa de realismo fantástico sobre exílio, imigração na América e – claro – especiarias. Estou relendo.

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Apesar de gostar de um bom curry asiático, não tenho (ainda, espero) o dom de combinar especiarias de modo a criar camadas de sabores (este livro está na minha wishlist). Eu me lembro da primeira vez que almocei num restaurante indiano em East Dulwich, Londres, e de ficar intrigada com a complexidade da sobreposição das especiarias, de como era semelhante a uma composição musical, em que tudo se sobressai e amalgama ao mesmo tempo.

O primeiro capítulo de A senhora das especiarias tem o título de “Curcuma”, nomenclatura brasileira de turmeric, em inglês, e de “açafrão-da-índia”, em português europeu. Eu já tive uma relação amor-ódio com essa especiaria, mas hoje em dia prefiro-a ao açafrão (de que, sinceramente, não gosto muito) e uso bastante para cozinhar (gosto muito em doces) e fins medicinais (é um poderoso anti-inflamatório).

Há uma loja aqui no Porto que sempre remete a este livro, a Flor D’Açafrão (Rua de Miguel Bombarda, 321, tel. 22 0930872, 11h-19h), com uma variedade extasiante de especiarias. A mistura de Garam Masala, preparada pela dona, é uma das minhas favoritas.

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No sábado de manhã, ao perceber que as ameixinhas que tinha comprado estavam longe de ser as mais doces, resolvi fazer uma geleia. Mais ou menos: 2 xícaras de ameixas picadas, uma xícara de água, uma colher de sopa de sementes de chia, uma colher de sopa de xarope de ácer, uma colher de sopa de açúcar mascavado, uma estrela-de-anis, uma pitada de canela, uma pitada de noz moscada. Deixei cozinhando em fogo brando até os líquidos reduzirem, e as ameixas estarem quase desfeitas, e adicionei ao meu mingau de leite de arroz, aveia e curcuma. Por cima, sementes de girassol tostadas.

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Café da manhã que podia ser sobremesa.