#Cook for Syria: cozinhando pela Síria

Embora muitas vezes tenhamos ouvido e lido que “algo como o Holocausto, nunca mais!”, a verdade é que o extermínio de inocentes é ocorrência diária neste lindo, mas mal habitado planeta. E o inferno pelo qual estão passando os sírios, principalmente suas crianças, é enorme e desesperador, não há muito mais a dizer.

Como ajudar? A nossa capacidade é limitada, mas além de voluntariado e das doações a ONGs e agências internacionais, há outras iniciativas. Uma delas é este livro de receitas, recém-lançado, cujos lucros das vendas são todos revertidos para a ajuda humanitária aos sírios.

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Com colaborações de Yotam Ottolenghi e Jamie Oliver, entre outros, o #Cook For Syria merece um lugar na sua estante, na sua cozinha – se você adora, como eu, este tipo de culinária e, principalmente, quer ajudar. Vamos cozinhar pela Síria.

 

Broinhas de milho (fubá)

Quando o meu pai ia viajar, os jantares lá de casa costumavam ser lanches mais reforçados, o que eu adorava. Tirando uma fase de quase total repulsa por comida que, dizem, durou até os meus 2, 3 anos, eu sempre me vi como “bom garfo”, mas gostava às vezes de jantares mais leves – era mais divertido, e um pouco subversivo, sair do dogma brasileiro do arroz-feijão-mistura. Os fins de semana eram mais flexíveis, mas se meu pai estava fora, o cardápio noturno era menos “rígido” também nos outros dias. Não que ele exigisse isso ou aquilo, mas minha mãe sentia a responsabilidade de colocar três refeições completas na mesa durante a semana – que trabalho isto deveria dar!

Uma das coisas que a minha mãe preparava para esses lanches noturnos eram as broinhas de fubá, uma receita que, infelizmente, não encontrei nos cadernos dela. Poucas coisas na vida são tão boas como pães, pãezinhos e bolinhos recém-saídos do forno, e elas não eram exceção.

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Usei esta receita, mas com algumas modificações. Na primeira vez que a preparei, achei adocicada demais e com um travo a fermento acentuado. Eu não gosto de broa muito doce, motivo que me fez desistir de comprá-las fora, acho que o sabor fica “agressivo”. Não é frescura, é que me acostumei mesmo a um sabor mais suave e acho que não precisamos exagerar no açúcar em pães e bolos de milho/fubá. Sei que o açúcar ajuda a trazer um pouco de umidade a essa farinha de natureza mais seca, mas é só tomar cuidado com o tempo de forno (e mesmo as mais doces costumam ser muito secas, estas ficaram perfeitas).

As minhas mudanças:

2 1/2 cs de açúcar em vez de 4;

1 colher de sobremesa de fermento em vez de uma de sopa (a colher de sobremesa a que me refiro é aquela menor que a de sopa e maior que a de chá, a de comer sobremesas, uma medida pouco usada hoje em dia);

e nada de queijo ralado, em vez disto, usei raspas de um limão siciliano (e também as sementes de funcho, pois adoro).

Ficaram bem melhores que as da primeira vez, quase lembraram as da minha mãe. Difícil é parar de comer.

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porto.come: mercado gastronômico de Natal

Na busca de um programa para o feriado da quinta-feira, fomos parar no porto.come, uma feira gastronômica* de Natal de produtos regionais que aconteceu de de 8 a 11 de dezembro na Alfândega do Porto.

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Estavam lá comerciantes de produtos como doces, compotas, chás, fumeiros, vinhos, licores, fogaças e queijos.

Havia também uma área de restauração, incluindo food trucks. No Parisboa, comi este delicioso crepe de trigo sarraceno, recheado com queijo de cabra, nozes e mel, e acompanhado por uma generosa salada.

Uma coisa em que reparei é que havia muitos estandes de doces e compotas em comparação com os demais produtos, o que não é de todo ruim, mas um pouco mais de variedade teria sido interessante. E, falando em doces e compotas, acabei trazendo este para casa.

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Eu adoro marmalade = doce (geleia) de laranja, tanto como outros doces e curds cítricos (os cítricos e os caramelos são o meu chocolate) e, após uma prova oferecida pelo simpático casal abaixo representando a Licompotas (que também produz licores), não deu para resistir.

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Já coloquei a compota no mingau de aveia, misturei ao iogurte, enfim, é uma delícia. Pena que só indo a Resende para comprar (ou ao restaurante Essência para provar, o que não será nenhum sacrifício), todas que experimentei eram ótimas. E fiquei inspirada a fazer algumas geleias caseiras. A ver.

*havia também alguns produtos não gastronômicos, como sabonetes artesanais e roupas.

Leituras: Bee Wilson e Laura Pires

Passei um fim de semana prolongado na Inglaterra e, infelizmente, não tenho nenhuma aventura gastronômica a relatar – o lugar onde me hospedo não é particularmente empolgante e foi uma visita de família, com uma rápida passagem pela congelante Londres (que amo, mas não tenho conseguido rever com a calma necessária).

Entretanto, adquiri um livro que queria muito e ganhei um outro, que minha prima me enviou via uma amiga de Brasília que está passando duas semanas por aquelas bandas. O primeiro foi First Bite: How We Learn to Eat (Fourth Estate), de Bee Wilson, que discorre sobre as bases culturais, afetivas e psicológicas de nossos hábitos alimentares.

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É uma leitura fantástica nesta época de tanta confusão e proselitismo sobre como devemos comer ou não e, como é o meu caso, para quem tem filhos com relações problemáticas com a comida (não é um livro de “conselhos”, mas sim, uma reflexão elucidativa sobre a nossa relação com a comida).

O segundo, que veio do Brasil, é Nutrindo Seus Sentidos (Editora Rocco), da Laura Pires.

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Havia muito tempo que queria um livro sobre culinária e medicina ayurvédica, e este é perfeito. Comecei a acompanhar a Laura no Instagram e o livro entrou para minha lista de desejos assim que o vi. É abrangente e ao mesmo tempo tempo simples, e as receitas incluem a preparação de masalas (misturas de especiarias indianas), que é algo que sempre quis aprender. Ela tem outros livros publicados dentro do mesmo tema, todos interessantes.

Já segui algumas dicas de preparação de arroz e fiz uma receita, de bolinhos de arroz e abóbora. Os meus não ficaram douradinhos, mas acho que não eram para ser.

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Eu estou numa fase de cozinhar com abóbora, que não é um dos meus ingredientes favoritos para pratos salgados, mas resolvi dar uma chance devido à estação. No sábado, preparei esse curry (caril) a olho e ficou fantástico. A foto está sofrível (não reparem no estado do individual…), mas acho que dá para ter uma ideia.

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Assei cubinhos de abóbora e floretes de couve-flor até ficarem tostados. Quando já estavam quase prontos, numa panela, tostei sementes de alcaravia, funcho e mostarda no óleo de coco. Acrescentei cebola picada, alho espremido e pó de caril/ curry. Depois, tomates e e cogumelos laminados, mais um pouco de passata. Adicionei um pouco de água e, quando os tomates já estavam mais desmanchados, a abóbora e a couve-flor. Finalizei com leite-de-coco, piri-piri/ pimenta calabresa, coentros picados e corrigi o tempero – deixei cozinhar por mais uns 3-4 minutos. O arroz integral, tostei e cozinhei com sal, um anis estrelado e coentro em pó. A repetir.

 

Brownie de chocolate e beterraba

Não vos enganarei – a textura deste brownie de chocolate e beterraba não fica idêntica à de um mais tradicional, mas fica menos interessante e ele, menos gostoso? Definitivamente, não. É bom demais.

Brownie light não existe, mas também não precisa existir. A não ser que você seja como eu e goste de receitas alternativas, um pouco mais leves que as originais. Se eu vou a um café ou pastelaria, quero saber se o brownie é light, com ou sem glúten, lactose, etc? Claro que não! Mas se vou fazer em casa, como já mencionei noutro post, prefiro algo menos pesado.

Eu nunca gostei de beterraba, esta raiz tuberosa sempre figurou na minha lista de alimentos intragáveis. Até que comecei a incluí-la no smoothie, juntamente com laranja e cenoura. E assá-la e combina-la com chocolate. Virei fã – mas ainda não gosto de beterraba cozida.

Depois de ver tantas receitas fiáveis que levavam beterraba e chocolate, resolvi criar a minha versão de um brownie assim. Eu uso gordura e açúcar de coco porque gosto muito das notas de sabores que, juntamente com a beterraba, deixam no bolinho. A beterraba realmente eleva o sabor do chocolate, que, mesmo assim, continua a ser o herói da receita. No caso do açúcar, geralmente faço meio a meio – açúcar amarelo ou mascavado, açúcar de coco. Importante – a doçura necessária vai depender do seu paladar e do chocolate que utilizar, eu uso o Pentagruel 70% cacau (vi que eles têm uma versão com estévia, vou procurar!), que já é bem docinho. Quero experimentar também com o Green & Black’s, que usava na Inglaterra e encontro aqui (mas bem mais caro).

Prove antes de levar ao forno e ajuste a doçura se necessário.

Brownies de chocolate e beterraba

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Ingredientes

1 beterraba cozida (cerca de 40 minutos, com a casca), descascada e cortada em cubos

130g de chocolate preto para culinária

80 g de gordura de coco (pode substituir por manteiga)

100 g de farinha (com ou sem glúten, usei 5o% arroz, 50% espelta branca)

100g de açúcar (usei 50% de coco, 50% amarelo)

2 ovos

Uma pitada de flor-de-sal

Preparo

Pré-aqueça o forno a 180ºC. Forre uma forma/ um tabuleiro quadrada(o) pequena(o) com papel vegetal.

Derreta o chocolate com a gordura de coco/ manteiga em uma tigela-pyrex sobre uma panela com água quente (não deixe ferver ou o fundo encostar na água!) em fogo brando ou no microondas. Deixe esfriar um pouco.

Faça um purê com a beterraba e um dos ovos num processador/ robot de cozinha. A minha nunca tritura totalmente, mas não se percebe no resultado final.

Verifique se o chocolate já esfriou um pouco e junte a farinha, o açúcar, o sal, o ovo restante e misture bem. A massa fica linda assim:

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Despeje na forma e leve ao forno por 18-20 minutos (depende do seu forno, claro). Deixe esfriar e corte em quadradinhos.

Se conseguir resistir, eles congelam bem.

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Todas as fotos são creditadas a mim, exceto quando outra fonte for citada. © Daniela Oliveira, todos os direitos reservados

 

 

 

Pitacos saudáveis #1

Eis uma nova rúbrica – mas sem a intenção de fazer grandes proselitismos à alimentação saudável. É que eu gosto de me alimentar bem e sem pesticidas, antibióticos e conservantes (ou crueldade animal, mas daí já é mais difícil sem se comprometer com uma dieta vegana), e estou sempre à procura de novas lojas e restaurantes que vendam ingredientes biológicos e incomuns/ sirvam refeições vegetarianas e veganas. Mas sou onívora.

No sábado, fui com a minha filha ao Human Fest Porto (13-16 de outubro, Pavilhão Rosa Mota, Jardins do Palácio de Cristal), e acabei lanchando por lá (comida vegetariana, na onda do evento). O estande que escolhi estava representando o restaurante Despertar da Sensibilidade (Rua Augusto Simões, 1359, Maia, Porto; tel. 22 948 9996). Havia opções interessantes de pratos quentes, as fotos da página do FB prometem um ambiente super zen e gostei do atendimento durante a feira. Provei(amos) o bolo, de beterraba, cenoura e espinafres com cobertura de chocolate, que estava ótimo (pensando seriamente em fazer uma versão aqui em casa, mas de cenoura e beterraba, duas camadas distintas, a criaturinha que pari detesta tudo verde). Experimentei, também, uma empada de tofu e cenoura; o recheio estava bem temperado, mas a massa, um pouco seca – acontece. O bolinho ao lado (que, na verdade, causou uma dor de barriga que durou até terça, uma pena, mas ela pareceu gostar) da empada era da minha filha; não cheguei a provar, e veio de outro estande, onde comprei o chá.

(alerta para TODAS as fotos a seguir: zero food styling)

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Cinco dias depois, na Baixa, resolvi finalmente conhecer o Da Terra (Rua Mouzinho da Silveira, 249, Porto, tel.: 223 199 257), mais um restaurante vegetariano no Porto, originalmente de Matosinhos. Uma conhecida tinha me falado maravilhas do tempero, é uma instituição vegetariana aqui da área, então, tinha bastante curiosidade. De qualquer forma, o Da Terra é um conceito mais amplo e também oferece cursos e workshops.

imgp0005imgp0014Primeiramente – eu compreendo que seja necessário capitalizar a clientela estrangeira (turística) que circula pela área. Mas o quadrinho podia ser bilíngue, não?

Lá dentro, o ambiente é luminoso e amplo, e o buffet é apresentado de forma elegante e tudo é muito bonito (bom, tão bonito quanto comida de buffet pode ser, já que não se tratam de pratos individuais). O atendimento é casual, e a moça atrás do balcão foi simpática ao explicar, após eu perguntar, que não aceitam cartão (?) e que eu poderia ir ao caixa eletrônico/ multibanco após a refeição se necessário (um voto de confiança que, no meu país de origem ou no da minha filha, dificilmente existe) – eu já tinha o meu prato feito na bandeja.

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Não pedi bebida e, após a minha primeira visita ao buffet, finalmente o empregado de mesa veio perguntar o que eu gostaria de beber. Um pouco tarde e, diante da minha negativa (em geral, não bebo durante as refeições, só vinho e cerveja quando como carne e, mesmo assim, não sempre), ele virou as costas sem dizer nada, como se eu realmente tivesse perdido todo e qualquer interesse. Não que houvesse algo a dizer, mas achei a atitude um pouco rude.

O que eu comi, em ordem cronológica (não sobrou espaço para sobremesa):

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Uma mistura de saladas: cenoura e passas, verde e Waldorf (amo). Um burrito de feijões e milho, uma torta/ tarte de legumes e torradinhas com homus de feijão branco e beterraba (acho que era isso, a textura cremosa era de feijões). A minha preferida foi a torta/ tarte, tanto que repeti na segunda rodada (assim como a Waldorf).

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Estes bolinhos cor-de-rosa com uvas eu não sei bem o que eram, mas tinham textura de polenta cozida. Pensando bem, acho, sim, que eram de polenta com beterraba. Não sei se gostei ou não, mas não estavam ruins. Neste prato há também a cebolada com tofu – muito boa, o tofu estava bem temperado, tinha sabor de queijo. No buffet, há sempre três pratos principais quentes, mais sopa, saladas e acompanhamentos variados.

Por fim, o outro prato quente. O caril de abóbora e cogumelos.

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Estava bom, mas a minha ideia de caril é um pouco diferente – molho espesso, seja à base de tomates, natas, amêndoas ou leite de coco, com uma mistura de especiarias um pouco mais complexa. Acho que a textura dos legumes pedia um molho mais encorpado. O seitan eu não (nunca) provei, já não havia espaço, e eu realmente não me sinto atraída por um pedaço de proteína difícil de digerir. Todos os restaurantes vegetarianos oferecem seitan, que eu vejo mais como “satã”. É subjetivo, sei.

O veredito? Voltaria, sim, quero experimentar mais. Adorei? Não, mas sei que é assim com buffets – o menu é um pouco desconexo, nem todas as opções são interessantes ou estão na temperatura certa, etc. Acho que o atendimento, pelo menos na Baixa, é às vezes um pouco impessoal, senti como se estivesse em Londres, numa cidade grande qualquer (algo como um “não lugar”), o que é bom para o negócio em termos de clientela turística, mas não me convence muito. Principalmente em uma cidade conhecida pela simpatia.

Todas as fotos são creditadas a mim, exceto quando outra fonte for citada. © Daniela Oliveira, todos os direitos reservados

Todas as Sextas: Paola Carosella

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“Conheci” a Paola Carosella via Masterchef Brasil, que tenho acompanhado aqui em Portugal. Eu confesso que teria desistido na primeira temporada – achei um pouco aquém (com uma aura muito Big Brother, e mais parecida com a versão americana, completamente oposta à australiana, minha favorita; a segunda foi bem melhor), mas ela e os outros jurados “me conquistaram”, e aguardo com ansiedade a terceira, já concluída no Brasil. Eu adoro Masterchef, é meu guilty pleasure, e mesmo os “ruins” são interessantes, pois é sempre legal saber como as pessoas cozinham em diferentes partes do globo. E o Brasil obviamente me interessa muito.

Eu queria muito que este post fosse uma resenha do livro acima, mas é uma aquisição que vai ter que ficar para mais tarde (o envio do Brasil para cá costuma sair caríssimo). É só mesmo um lembrete de que essa cozinheira e restauranteur fantástica acabou de lançar um livro de receitas e histórias, com fotografias de seu companheiro, o fotógrafo britânico Jason Lowe.